Muito se tem questionado sobre qual o maior Papão da economia e da sociedade: se o Deficit ou a Dívida? Mas na realidade o verdadeiro papão (ressalvo desde já o sentido literal do termo) não é nenhum dos gémeos. Acuso formalmente o subtil manipulador, tutor e mordomo de ambos - o Crescimento.
A evolução da humanidade individualizada e consequentemente da sociedade, tem sido realizada pelo típico processo da cenoura à frente do nariz. Ou seja, considerar exclusivamente a componente materialista como fator simultâneo de quebra de inércia e critério de realização pessoal e coletiva, o que consecutivamente tem-nos impedindo de olhar, aprender e contemplar o que nos está ao redor. Pior, obviamente distraídos, tropeçamos continuamente pois nem olhamos para o chão que pisamos. Quando a queda é suficientemente forte e nos magoa a sério, lá abrimos os olhos (demasiado tarde, claro!), dando corpo às conjunturas, ciclos, crises, protestos, guerras, etc, concisos abre olhos indutores do progresso moral e social
Assim envoltos nas alhadas resultantes de processos que são à posteriori fáceis de ajuizar, a culpa é sempre dos que governam. Para estes dos que governaram anteriormente, e por aí fora até Deus que não tinha nada que nos mandar viver juntos com tão reles criaturas (todos os outros, claro, porque nós somos perfeitos em tudo). Como foi possível não verem que eram más opções? Obvias politicas mal delineadas? Objetivos desajustados? Estratégias para favorecimento de uns poucos? … enfim, um rol de lutas obscuras dos malandros das alas destras contra os subversivos das sinistras (e vice-versa), do capital contra o trabalho, dos maus contra os bons… do raio contra o que nos parta!
Que bendita evolução civilizacional é esta que determina que é preciso e possivel crescer economicamente de forma continua e infinita? (O tanas, diga-se logo financeiramente). Que eu saiba, de onde não há não se pode tirar!
Ninguém quer saber se exportamos muito ou se fazemos muito bons sapatos, ou temos o melhor sistema ATM do mundo. Tretas para exacerbar um orgulho nacional que na prática servem para esconder uma segurança social insegura, uma justiça injusta, um fantástico sistema nacional de saúde (10º melhor do mundo) que objetivamente é tão sustentável como a obras feitas na Madeira, um tecido empresarial assente quase só em serviços tornando-nos dependentes de outros até para comermos, tudo suportado maioritariamente em empresários que buscam essencialmente copiar negócios de sucesso de outros. Porquê tanta ilusão?
Porque precisamos de validar que “evolução e progresso” é ter mais dinheiro, e isso só é visível em obra material executada ou adquirida, na expectativa de podermos ter cada vez mais tempo sem nada fazer e, contemplativamente, dela usufruir.
Como o que fazemos é manifestamente pouco para as necessidades coletivas, e ou destruturado por nos concentramos mais nos objetivos do que na boa execução das tarefas para os concretizar, instintiva e inconscientemente empurramos para o estado a obrigação de nos suprir as falhas.
Assim, quem quer chegar ao poder, tem de obrigatoriamente desfraldar a bandeira do aumento da riqueza fácil para todos, acenando a sua pedra filosofal como a única e autêntica (como se já alguma vez o tivessem conseguido demonstrar). Ora é aí que a obra “cresce” excessiva para as possibilidades. Passa para o mundo da fantasia, por via da tal cenoura que diz que se outros conseguem, nós, os descobridores do mundo, não podemos ficar atrás – eis o Deficit (provavelmente mais de atenção do que de qualquer outra coisa). Como este só pode ser pago obviamente com moeda da mesma realidade fictícia (crédito) – eis a Dívida.
Esta dinâmica é gerida assente em expectativas de que a sociedade (economia) é capaz no futuro gerar fluxos financeiros suficientes para os suportar os devaneios dos manos – eis a gestão de expetativas (ratings e risco). E lá vamos nós gerindo a ambos e nunca os educando (eliminando), mesmo perante o facto de que as únicas coisas que realisticamente cresceram foram a imaginação, as dificuldades e a consequente ânsia.
Procuro nunca fazer uso de adjetivos quando escrevo sobre sere humanos, mas quem assim gere uma família, empresa, país ou conjunto de países, é insensato, egocêntrico, irresponsável, orgulhoso déspota … criminoso! Não porque eu o afirme, mas porque a sociedade amplamente acaba por fazer esse juízo de valor, sem reparar que apenas tentam cumprir com as suas (sociedade) expectativas, naturalmente infetados da mesmíssima doença, o que os torna fáceis bodes expiatórios.
Vejamos então como num repente a Vontade, criadora da ilusão de que é possível “crescer” infinitamente e a tudo sustentar, nos atira para a (ir)realidade da forçosa Necessidade, pois ao não se concretizar, irresponsavelmente não cumpriremos com os compromissos assumidos, ficando à mercê do arbítrio alheio, pior, não poderemos continuar a dar pasto ao fogo do Crescimento, mostrando obra feita, como critério de sucesso nesta vida, que sendo ela tão curta, imperioso se torna demonstrar que somos capazes de vivê-la “à grande” e depressa.
… e assim o Crescimento nos vai papando o tempo, a seriedade, a serenidade, a saúde e, paradoxalmente … o dinheiro!![]()
Considerará o leitor – mais um a arrolar causas e consequências, mas soluções que é bom…
As irei apresentando para reflexão, mas por agora saio em auxilio urgente a moribundos … enfermos de dores de crescimento!


eheheheh